
Por Luiza Soeiro, Head de Saúde da level
Existe um paradoxo pouco discutido na evolução da gestão assistencial: estamos aumentando nossa capacidade de identificar quem precisa de cuidado em uma velocidade maior do que nossa capacidade de fazer esse cuidado chegar até essas pessoas. O paciente não está necessariamente invisível, o risco pode já ser conhecido e a informação pode estar disponível. Ainda assim, a intervenção não acontece.
A saúde materna é um dos exemplos mais claros dessa distância. A gestação tem uma jornada conhecida, marcos clínicos estabelecidos e uma janela relativamente previsível de acompanhamento. Ainda assim, uma mulher pode ser identificada como gestante em um exame, laudo ou anamnese sem que essa informação resulte, necessariamente, em sua entrada em uma linha estruturada de cuidado.
Por isso, acredito que precisamos mudar uma das perguntas que fazemos na gestão em saúde. Além de saber quantas pessoas conseguimos identificar, deveríamos medir quanto tempo existe entre reconhecer uma necessidade e fazer o cuidado efetivamente começar.
Na prática, é justamente nesse intervalo que muitas jornadas se rompem. Uma informação aparece em uma anamnese, mas não gera uma ação. Um exame indica uma gestação, mas o resultado permanece restrito ao sistema em que foi processado. A paciente é identificada, mas ninguém é acionado para abordá-la. Ou o risco é reconhecido, mas não existe acompanhamento para verificar se a conduta recomendada aconteceu.
Ter informação, portanto, é diferente de reconhecer seu significado, que, por sua vez, é diferente de conseguir agir sobre ele. Essa distinção parece simples, mas pode ser uma das questões mais importantes para a evolução da gestão assistencial.
Na medicina, o tempo entre identificação e intervenção já é tratado como variável crítica em diversas situações. Sabemos que, em determinadas condições, agir rapidamente pode mudar um desfecho. Na gestão populacional, porém, ainda discutimos pouco o “tempo até o cuidado”.
Na saúde materna, deveríamos perguntar: se uma gestação aparece em um beta-hCG, ultrassom, laudo ou anamnese, quanto tempo leva até que essa informação seja incorporada à gestão daquela população? Quanto tempo até a paciente ser abordada? Sabemos se ela está realizando pré-natal? Seus fatores de risco foram avaliados? Existe alguém acompanhando sua jornada?
Essas perguntas ganham importância porque identificar uma gestante é apenas o início de um processo assistencial. Depois disso, é preciso compreender seu contexto, avaliar riscos, garantir acesso à rede adequada, acompanhar adesão e perceber rapidamente quando sua condição muda.
Uma gestante inicialmente classificada como risco habitual pode desenvolver hipertensão ou diabetes gestacional. Pode não realizar um exame importante. Pode recorrer repetidamente ao pronto atendimento ou enfrentar uma barreira de acesso que não aparece em nenhuma classificação clínica. Por isso, uma linha de cuidado não deveria funcionar apenas como uma sequência de protocolos. Ela precisa ser capaz de acompanhar trajetórias e responder às mudanças que acontecem ao longo delas.
A tecnologia tem um papel importante nessa transformação. Informações relevantes nem sempre estão organizadas em campos estruturados. Podem aparecer no texto de uma anamnese, em um laudo ou em diferentes registros da jornada. Novas ferramentas permitem interpretar essas informações, cruzar sinais e identificar pacientes que modelos tradicionais poderiam não encontrar.
Mas há um limite importante: um alerta não cuida de ninguém.
A tecnologia pode indicar que existe uma gestante que precisa de atenção. A partir daí começam as perguntas essencialmente assistenciais: quem recebe essa informação? Quem aborda a paciente? Como verificamos se ela está sendo acompanhada? Quando o caso precisa ser direcionado para outro nível de atenção? Como sabemos se a intervenção aconteceu e qual foi seu resultado?
Essa discussão também precisa chegar aos desfechos. Quando uma gestação evolui para uma internação de maior complexidade ou quando um recém-nascido necessita de terapia intensiva, é natural concentrarmos nossa atenção naquele evento. Mas a gestão assistencial deveria conseguir olhar para trás e reconstruir a jornada: havia sinais anteriores de risco? A paciente estava sendo acompanhada? Existiram oportunidades de intervenção? Alguma ruptura aconteceu entre identificação e cuidado?
Evidentemente, nem toda complicação materna ou neonatal é evitável. Mesmo a melhor assistência convive com riscos. O objetivo não é criar a ilusão de que todos os eventos adversos podem ser prevenidos, mas desenvolver capacidade para distinguir aquilo que era inevitável daquilo que foi precedido por oportunidades assistenciais não aproveitadas.
Há também uma dimensão econômica nessa discussão. Eventos de maior complexidade mobilizam equipes especializadas, leitos, tecnologia e recursos intensivos. Conhecer antecipadamente as necessidades de uma população permite organizar melhor a rede, priorizar pacientes e direcionar recursos antes que a assistência seja necessária apenas em seu ponto de maior complexidade.
Por isso, não vejo assistência e sustentabilidade como agendas concorrentes. Eficiência assistencial não significa simplesmente reduzir custos ou utilização. Significa utilizar os recursos disponíveis no momento em que eles têm maior possibilidade de produzir valor para o paciente.
Estamos avançando rapidamente na capacidade de reconhecer riscos, interpretar informações clínicas e encontrar pacientes que antes poderiam passar despercebidos. O próximo avanço precisa acontecer na outra ponta: transformar esse conhecimento em ação.
Na saúde materna, isso significa deixar de perguntar apenas “conseguimos identificar essa gestante?” e acrescentar uma pergunta mais difícil: “o que aconteceu depois que a identificamos?”
Porque identificar o risco é apenas o começo. A maturidade assistencial está na capacidade de transformar aquilo que sabemos sobre uma pessoa em cuidado que efetivamente chega até ela.
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