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Depois de todo o esforço de rastreamento, investigação e confirmação diagnóstica, existe uma etapa em que o tempo passa a ter um peso ainda maior: o intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento. É a quarta população invisível da jornada do câncer de mama, a das pacientes que foram diagnosticadas e precisam iniciar o tratamento em tempo oportuno.
Pode parecer contraintuitivo chamar essa população de invisível. Afinal, a paciente já tem diagnóstico, já está em contato com a equipe, já é conhecida. Mas o intervalo até o tratamento raramente é medido de forma sistemática, paciente a paciente. E as pacientes diagnosticadas que não têm evidência de tratamento na rede podem simplesmente desaparecer dos registros, sem que ninguém saiba se iniciaram o cuidado em outro serviço ou se ainda estão esperando.
Este artigo discute por que o tempo diagnóstico→tratamento deve ser tratado como indicador estratégico, qual é o papel das referências legais do SUS nessa discussão e como a navegação baseada em dados torna esse indicador acompanhável.
O Brasil tem um arcabouço legal específico para o tempo da jornada oncológica no SUS. A Lei nº 12.732/2012 estabelece que o primeiro tratamento deve ter início em até 60 dias a partir do diagnóstico patológico. A Lei nº 13.896/2019 prevê até 30 dias para os exames de elucidação diagnóstica quando a hipótese principal é neoplasia maligna. A Lei nº 14.450/2022 criou o Programa Nacional de Navegação de Pacientes com Neoplasia Maligna de Mama, e a Lei nº 14.758/2023 estendeu a lógica de navegação a todos os tipos de câncer no âmbito da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer.
Essas normas se aplicam ao SUS, com condições específicas. Não é correto generalizá-las juridicamente para operadoras e hospitais privados. Mas elas oferecem algo valioso para qualquer instituição: uma referência de indicador assistencial construída a partir de consenso técnico e debate público.
Os dados disponíveis mostram por que a referência importa. Um estudo publicado na revista Mastology, da Sociedade Brasileira de Mastologia, analisou o período de 2017 a 2022 no SUS e encontrou que 54% das pacientes com câncer de mama iniciaram o tratamento depois de 60 dias; apenas 24,4% começaram em até 30 dias, e 25,5% aguardaram mais de 120 dias. A publicação do Instituto Nacional de Câncer (INCA) “Controle do Câncer de Mama no Brasil: Dados e Números 2025” aponta avanços no cumprimento do prazo, mas registra que a maior parte das pacientes diagnosticadas entre 2020 e 2024 não iniciou o tratamento dentro dos 60 dias.
Para o diretor clínico de uma instituição privada, a pergunta que esses números sugerem não é uma acusação. É uma pergunta de gestão: qual é o número equivalente na sua rede, e você consegue calculá-lo hoje?
A navegação de pacientes surgiu justamente para enfrentar as barreiras que alongam o intervalo entre suspeita, diagnóstico e tratamento. O conceito é simples: acompanhar a paciente ao longo das etapas críticas, identificar barreiras e garantir que cada etapa aconteça no tempo adequado.
A evidência brasileira é encorajadora. Uma coorte retrospectiva em um hospital de grande porte comparou pacientes com câncer de mama incluídas em um programa de navegação em enfermagem com pacientes não incluídas. Entre as atendidas pelo SUS, a mediana de tempo entre diagnóstico e qualquer tratamento foi de 77 dias nas navegadas, contra 100,5 dias nas não navegadas. Um relato de implementação em um hospital oncológico de Porto Alegre registrou redução de 26% no tempo entre o diagnóstico e o início da quimioterapia neoadjuvante, de 77 para 57 dias, após a estruturação do programa de navegação na linha de cuidado da mama.
Esses resultados têm uma característica comum: a navegação funciona porque transforma o tempo em algo observável. Uma equipe de navegação sabe, para cada paciente, em que etapa ela está e há quanto tempo. O desafio é escalar essa visibilidade para uma carteira inteira, sem depender exclusivamente do acompanhamento manual.
É aqui que a lógica do INCA sobre rastreamento organizado se encontra com a navegação. Ambas pressupõem identificar a população, acompanhar cada etapa e monitorar o resultado. Ambas dependem de dado.
A level Care calcula os intervalos da jornada a partir dos dados que a instituição já possui. Ao cruzar o laudo anatomopatológico com biópsia positiva, os registros de SADT, as prescrições, os dados de internação e a utilização, a plataforma identifica quando o diagnóstico foi registrado e quando há evidência do início do tratamento.
Com isso, a gestão passa a acompanhar indicadores que antes exigiam levantamentos manuais: o tempo médio entre achado e investigação, o tempo entre diagnóstico e tratamento, o percentual de pacientes com início de tratamento em até 60 dias quando aplicável, as diagnosticadas sem evidência de tratamento na rede e a retenção da jornada. Cada indicador pode ser aberto por paciente, o que permite que a equipe atue sobre quem está fora da referência escolhida pela própria instituição.
A precisão de linguagem se mantém. Uma paciente diagnosticada sem evidência de tratamento na rede pode ter iniciado o cuidado em outro serviço. Para a instituição, isso também é informação relevante: pode indicar uma perda de retenção que merece ser compreendida.
A mesma lógica já foi aplicada em oncologia na saúde suplementar. Na Unimed Tubarão, a level Care colocou 4.775 beneficiários em linha de cuidado ativa, priorizou 543 pacientes de alto risco e reduziu o tempo de captação de 100 para 10 dias.
O tempo entre diagnóstico e tratamento é um dos indicadores mais importantes da jornada oncológica e um dos menos acompanhados de forma sistemática fora do SUS. As referências legais de 30 e 60 dias não obrigam a rede privada, mas oferecem um parâmetro técnico que qualquer diretoria clínica pode adotar como meta interna.
Medir esse intervalo, paciente a paciente, é o primeiro passo para geri-lo. E geri-lo é o que diferencia uma instituição que acompanha a jornada de uma que apenas registra seus desfechos.
Se a sua instituição quer começar a medir esse intervalo com os dados que já tem, fale com o time da level.
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